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Felinamente falando A RAZÃO... A escolha. O que fazer? A minha vida toda eu tive que escolher entre dois felinos. Um que já vivia em minha vida e outro, que recém-chegado mostrava a promessa de “mares nunca navegados” ou melhor, de “ronronares nunca ouvidos”... E eu sempre escolhi. Demorando ou não, invariavelmente eu escolhi o felino recém- chegado, cheio de promessas, com olhos brilhantes e um caderno cheio de páginas em branco onde pudéssemos escrever a nossa história recheada de paixão. Então, a paixão sempre venceu... Mas agora, eu estava diferente. Magoada sim, em farrapos, sem garras, pêlos caindo, miando fraquinho, sem forças, com sono, olheiras do tamanho de tigelas de sopa... eu tinha um filhote... e claro, mais uma vez, tinha que decidir entre dois felinos. O que cada história do meu passado tinha em comum? Uma alegria inesperada no começo, de amigo que virou príncipe... mas com o tempo, acaba virando sapo, trazendo junto de si, todas as nojeiras encontradas em brejos. Esse meu novo felino, lindo e cheio de sonhos, de sussurros que prometiam arrepios incomensuráveis, doente de tão apaixonado, impaciente e ardente... mesmo assim, confidente e confiante esperava o dia em que eu chutaria o gato velho e safado prá fora do meu ninho. Eu sabia que ele pularia feliz prá minha cama e que cuidaria do meu filhote também – contrariando a territorialidade dos felinos – como se fosse dele. Todas as vezes em que decidi, eu decidi com o coração. A emoção dos beijos e as páginas em branco venceram a história que já tinha sido vivida. Literalmente, eu virava a página e seguia adiante. No começo, feliz por poder começar outra história. Mas também invariavelmente, no começo desta nova história, havia uma tristeza. Meu coração sempre se compadecia do amor que ficava para trás, como um sapato velho mas que mesmo que não seja o mais bonito é certamente confortável e encaixa tão bem!... Claro que havia um período de transição. E neste período, todos sofriam. Era o, digamos, teste de resistência do felino novo... era o tempo que o gato dispensado tinha prá recolher os cacos e seguir adiante. A verdade? Sentia vergonha de mim mesma, por tudo isso e pela repetição absurda do mesmo tema, sempre do mesmo jeito... uma música monótona... um horror... por isso, quando vi tudo acontecendo do mesmo jeito, a mesma história, me arrepiei e pensei desta vez, pensei: não! Destituí meu coração do cargo de chefe. Chamei a razão: falei como um diretor desesperado: faça o que for preciso para salvar tudo o que eu tenho. A razão concordou, deixa comigo, ela disse. Me fez olhar pro filhote. Ele sempre seria do gato antigo. Golpe baixo, pensei. Me fez olhar pro gato antigo. Algo nele inspirava proteção e cuidados, apesar de tudo. Tocou no meu instinto de me agarrar a causas perdidas e a minorias desprotegidas. Outro golpe baixo. Me fez olhar o gato novo. Sua impulsividade, impaciência e capacidade de irritar as pessoas. Sacanagem, isso... essa frieza não era minha... “claro”, sorriu a razão, “é minha...” Discutimos, eu e a razão. Mas como eu tinha dado carta branca a ela e vendo seus argumentos tão lógicos, claro (rs rs) comecei a vacilar na minha decisão de me juntar ao novo felino. O golpe derradeiro foi quando ela me mostrou a natureza bélica dos dois. Um, estrategista. Outro artilheiro. Nenhum dos dois desiste de uma guerra depois que entra, e claro, a minha decisão traria a guerra para dentro do ninho. Escolhendo o novo felino, o outro sempre estaria por perto, por causa do filhote e eles sempre se esbarrariam... “Perigo” alertava a minha razão. Meu coração começou a protestar. Lágrimas. Muitas e literalmente, de sangue. A razão sorriu. Era óbvio, ela disse. Escolhendo o novo felino eu faria tudo de novo. Repetiria as histórias e novamente, lá na frente, eu o abandonaria por outro... e se eu ficasse na história em que estava?? O que eu perderia? Um futuro... o que eu ganharia??? Uma chance de escrever novas páginas, mesmo em um velho caderno... A razão estava no comando, agora. Mesmo que eu tenha discutido arraigadamente com ela, por tanto tempo. Chorado, blasfemado e implorado. A razão é inflexível e assim, eu por fim, vi o felino novo se afastar, rechaçado pelo felino que dominava o meu território, o pai do meu filhote. Vi seu sofrimento (e o meu) impotente. Vi seu desequilíbrio se instaurar, sabendo que o único remédio não viria de mim. Sentindo a dor terrível de saber disso. Machucado, desequilibrado, na sarjeta, ele me olhava ainda esperançoso. Acabava comigo, meu coração gritava, mas eu continuei parada. Bastava um passo, mas não me mexi. Esta escolha foi diferente das outras, então. Pela primeira vez, eu tinha um futuro não definido – o que não era garantia de nada, mas... - e eu pedi, com todas as minhas forças, que ele conseguisse ser feliz, com alguém que o merecesse... Escolhi não ouvir seu ronronar, escolhi não viver um sonho novo... Mas que fique claro grita meu coração ”Essa foi a escolha da razão, e não minha!...” Ok, então. Tá registrado. A paixão foi só um sonho. A farra no telhado foi pura imaginação... Escrito por Kitty Catt às 09h55 [ ] [ envie esta mensagem ] |
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